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Laúca, um apaixonado pelo Vitória

Mário Freitas em 24 de março de 2017 às 00:00

Quem gosta de ouvir futebol pelo rádio, pode não conhecer Arnaldo Ladislau de Santana, mas pelo apelido, Laúca, a maioria conhece. Foi viciado em bebidas alcoólicas, esteve internado, foi atropelado, mas atualmente, liga para as rádios e vende picolés.

Conheça um pouco mais deste torcedor fanático pelo Vitória.

Mário Freitas = Qual o seu nome completo, Laúca?

Laúca             = Arnaldo Ladislau de Santana.

MF = Você nasceu onde?

L    = Em Salvador.

MF  = Em que bairro?

L     =  Maternidade Anita Costa, no Rio Vermelho.

MF  =  Por que o apelido?

L     =  Rapaz... Isto aí é um apelido de criança. Eu era muito peralta, muito

           brincalhão, menino teimoso, menino rebelde, no bom sentido. Menino

           astuto, que gostava muito de brincar, aí Laúca prá lá, Laúca prá cá e  ficou.

MF  =  Você foi menino onde?

L     =  No Nordeste de Amaralina.

MF  =  Você estudou, frequentou escola, fez o quê?

L     =  Primeiro grau completo.

MF  =  Onde?

L     =  Nas escolas: Sátiro Dias e Copertino de Lacerda, em Amaralina.

MF  = Seus pais como eram?

L     = Eram pobres, pessoas humildes. Minha mãe era lavadeira, meu pai pedreiro.

MF  =  O nome deles?

L     =  Eron Ladislau de Santana e Benedita de Jesus Santana. Já se foram.

MF  = Nasceram aqui mesmo, Salvador ?

L     =  Não, os dois nasceram em Castro Alves.

MF  =  Quantos irmãos você tem?

L     =  Só tenho uma irmã, Maria de Lourdes Santana Santos.

MF  =  Suas atividades, seu trabalho, você fez o que na vida ?

L     =  Eu trabalhei em almoxarifado, no Quartel do Exército, durante muito tempo.

           Trabalhei de ajudante, serviços gerais, almoxarifado, ganhei a confiança do

           pessoal e fiquei tomando conta dos materiais, dos armários... Trabalhei no

           Quartel da Mouraria, do Campo Grande, Amaralina, Paralela. Depois

           trabalhei com Dr. Eunir Rocha, que já faleceu, na Reitoria Federal...

           Trabalhei na Crool, uma firma que tinha aqui na Avenida Pestana. Em

           outros lugares.

MF  =  Diga os outros lugares que você trabalhou?

L     =  Trabalhei muito, de servente de pedreiro, avulso também, muitos biscates,

           quando não tinha trabalho fixo. Mas nunca ficava parado.

MF =  Você está aposentado?

L     =  Sou, aposentado por invalidez, por causa do problema visual que tenho.

MF  =  Você hoje enxerga pouco, né? Você vai para a rua só?

L     =  Tenho a visão bastante comprometida, muito comprometida mesmo.

MF  =  Os dois olhos?

L     =  Só enxergo pouco por uma vista, pela outra não enxergo nada.

MF  =  Qual a que você perdeu?

L     =  A esquerda.

MF  =  Mas perdeu quando? Você tinha quantos anos?

L     =  Novo, ainda era criança.

MF  =  Por quê? O que houve?

L     =  Tentei fazer uma operação, mas naquela época a Medicina não era avançada

           igual a hoje e acabei perdendo.

MF  =  Mas por quê? O que os médicos disseram na época?

L     =  Os nervos... Neutralizaram e eu perdi a visão.

MF  =  Perdeu a esquerda, total?

L     =  Total.

MF  =  E a direita?

L     =  Enxergo muito pouco, enxergo... (risos). Conheço Salvador de ponta a

           ponta. Aí me dá uma vontade muito grande de sair, mas eu enxergo muito

          pouco.

MF  =  Você sai sozinho?

L     =  Saio... saio bastante. Conheço Salvador como a palma da minha mão.

MF  =  Você pega ônibus?

L     =  Sim, tranquilo.

MF  =  Você vendia picolé, né?

L     =  Vendo, até hoje. Na Pituba.

MF  =  Em que lugar?

L     =  Na Manuel Dias da Silva, na rua Minas Gerais, Rua Amazonas, Rua São

           Paulo, Santa Catarina, Ubaranas. Ali pela Pituba mesmo.

MF  =  Você já tem seus clientes certos?

L     =  Mais ou menos (risos). Hoje em dia, o movimento está fraco, dizem que é a

           crise.

Mf   =  Você começa a trabalhar que horas, Laúca?

L     =  10 horas mais ou menos, 10 e meia.

MF  =  E pára que horas?

L     =  4 horas, 3 e meia, 3 horas... depende do movimento.

MF  =  Você vende, em média, quantos picolés por dia?

L     =  Eu já vendi mil picolés. Hoje se vender cem...

MF  =  MIL?

L     =  Vendi já, Quando estavam fazendo esta Avenida Manuel Dias da Silva, eu

           cheguei a vender mil  e poucos picolés, todo dia.

MF  =  Você compra em algum lugar ou como é que é?

L     = Compro aqui, na Sorveteria Boa Esperança, no Nordeste de Amaralina, no

           fim de linha.

MF  =  Compra aí e revende ? Não vende para o dono não, né?

L     =  Não.

MF – Você compra o picolé, vende, depois paga ao cara e o lucro é seu?

L     =  Não, eu compro com meu dinheiro e vou vender.

MF  =  E se não vender?

L     =  Se não vender eu guardo, vendo no outro dia, a depender do estado que ele

           estiver. A gente chama boiada, quando está amolecendo (risos), dá boiada.  

MF  =  Laúca , quando começou sua paixão pelo Vitória?

L     =  Rapaz, é uma coisa assim... é um negócio meio complicado. Em sessenta e

           seis...

MF  = Em 1966?

L     =  Sim. O Vitória jogava contra o Leônico. Aquele jogo que o Vitória

           tomou dois a um. De lá prá cá eu me apaixonei pelo Vitória.

MF  =  Na final do campeonato, primeiro o Leônico deu 2 x 1, depois o Vitória deu

           2 x 1 e novamente o Leônico deu 2 x 1.

L     =  É verdade. O Leônico tinha Gomes,  Binguá,  Bolinha, Gajé, Careca. Um

           timaço.

MF  =  E foi a primeira vez que você foi a Fonte Nova?

L     =  Sim. Foi a primeira vez.

MF  =  Você tem quantos anos, você diz sua idade?

L     =  Digo sim. Eu sou de 12 de outubro de 1958. Vou fazer 59 anos em

           outubro.

MF  =  Então você tinha oito anos?

L     =  Oito anos.

MF  = E quem lhe levou?

L     =  Meu padrinho que era torcedor do Bahia ferrenho.

MF  = Como era o nome dele?

L     =  Esmeraldo, morava na Cardeal da Silva, junto da casa de Osório Vilas Boas.

MF  =  Esmeraldo de que?

L     =  Esmeraldo Santana, era gerente do Banco do Brasil.

MF  =  Nessa época você já tinha tido o problema no olho?

L     =  Tinha, mas não era tanto.

MF  =  Já não enxergava pela vista esquerda?

L     =  Enxergava.

MF  =  Você perdeu quando?  Com quantos anos, Laúca?

L     =  Quatorze anos mais ou menos.

MF  =  E o outro Laúca? Começou a perder quando?

L     =  O outro comecei a perder porque passei a beber bastante.

MF  =  Qual foi a doença? O que os médicos diziam?

L     =  Eu tenho glaucoma e retinose pigmentar.

MF  =  Voltando, seu padrinho lhe levou para a Fonte Nova pela primeira vez, no

           jogo Leônico dois e Vitória um?

L     = Verdade (risos).

MF  =  Aí na derrota você começou a gostar do Vitória?

L     = Sim.

MF  =  Passou a frequentar o estádio?

L     =  Eu tinha tudo para ser Bahia.

MF  =  Por quê? Conte aí.

L     =  Eu não saia da Fazendinha, era muito amigo de Paulo Maracajá, Douglas me

           trazia, Picolé...Sou muito amigo de Beijocão, aí foi mais tarde. Eles

           moravam pela Pituba e me levavam de carona. Já para o treino do Bahia,

           aqui no Nordeste  eu ia andando. Paulo Maracajá me dava bola e tudo.

           Não houve jeito de ser torcedor do Bahia.

MF  =  Você chegou a jogar bola quando era menino?

L     =  Não, quando menino não. Agora, com boa idade joguei no futebol de cegos,

           lá no CAP, Centro de Apoio Pedagógico ao Deficiente Visual, na Mouraria,     

          numa escola que hoje é em Nazaré. Joguei bola sim, Fubebol de cinco,

          aquelas bolas com guizos. Você sabe né? 

MF  =  Sei sim. Laúca você começou a torcer pelo Vitória numa derrota e quais os

            jogadores que marcaram a sua infância? E depois na sua juventude e como

           adulto. Jogadores do Vitória que mais lhe marcaram. Até outros daqui da

           Bahia.

L     =  Ah... foram vários. Kleber Carioca, oTinho. Betinho,  Romenil.

           Tinha o Armandinho, que era do Leònico, muito bom, também. Do Vitória

           existiam vários: André, Osni.

MF  =  Você tinha amizade com algum deles?

L     =  Tinha muita amizade com André Catimba, Mário Sérgio me tratava super

           bem.

MF  = E hoje, André Catimba, ainda tem amizade com você?

L     =  Tenho, é um cara bacana, cada um na sua atividade, mas André é meu

           brother, gente boa, da melhor qualidade.

MF  =  Laúca, você me disse uma vez que bebia prá caramba e que teve de entrar

           nos Alcoólicos Anônimos. Conte esta história.

L     =  Ah! Rapaz...esta história é um pouco complicada. Eu bebia prá caramba.

            Tive tuberculose, fui atropelado, bebi creolina, fui preso, fui internado em

           sanatório. Minha vida foi triste.

MF  =  Mas é bom a gente contar. Vamos lá. Você começou a beber quando?

           E por quê?

L     =  Comecei a beber aos 14, 15 anos, porque...

MF  =  Foi influenciado por alguém?

L     =  Não... a influência... você sabe, né? Naquela época os pais diziam que o filho

            tinha de beber prá ser homem. Aí comecei a beber com meu pai, com uma

           turma, com Dr. Eunir Rocha, no Quartel do Exército, saia para beber, nas  

           festas de largo, a violência era bem menor. Passei a ter liberdade, beber

           sozinho...

MF  =  Bebia todo dia?

L     =  Logo no início não, só sábado e domingo. Depois passei a beber segunda,

           terça, quarta, quinta e...

MF  =  Todos os dias, até ficar bêbado? Bebia o que?

L     =  Tudo.

MF  =  O que é tudo? Diga aí, cerveja...

L     =  Da cerveja ao álcool.

MF  =  Álcool puro?

L     =  Quando não tinha nada bebia álcool.

MF  =  Com quantos anos, mais ou menos?

L     =  Até vinte sete, vinte oito...

MF  =  E como você se curou? Você disse que foi atropelado, onde?

L     = Fui atropelado várias vezes. Na Ladeira da Praça, na Avenida Visconde de

           Itaboraí, aqui em Amaralina, no Engenho Velho de Brotas...

MF  =  Mas por quê? Bebia, ficava bêbado e atravessava a rua, é isto?

L     =  Ficava bêbado, atravessava a rua, perdia a noção de perigo e o carro me

           pegava. Fui atropelado também na Praça Castro Alves.

MF  =  Quantos atropelos no total, você tem noção?

L     =  Quatro.

MF  =  E tem algum mais grave?

L     =  Teve. Em 1980, no carnaval, eu fui atropelado. Estava no Santo Antonio

           Além do Carmo, no Colégio da Mocidade e achei que tinha de vir para o

           Apache do Tororó (eu sai no Apache), com Beijoca, uma turma legal e

           quando cheguei na Ladeira da Praça, perto do Corpo de Bombeiros, o carro

           me pegou e lascou minha cabeça toda. Depois lhe mostro.

MF  -   Você estava bêbado também, neste dia?

L     =  Sim, bèbado.

MF  = Nesta época você dormia na rua? Vinha para casa? Como era?

L     =  Muito. Dormi muito na rua. Eu me apagava.

MF  =  E quem lhe pegava? Quem lhe dava apoio?

L     =  Ah! Agradeço muito à Polícia Militar, que me ajudou muito, me deu muito

           apoio, me pegava, me levava para o HGV (nesta época), até para a  COT.

           Quando minha mãe saia me procurando, me achava por lá.

MF  -   Esse apelido, Laúca, você já tinha?

L     =  Já, já, ... desde infância, desde criancinha.

MF  =  A paixão pelo rádio, como foi?

L     =  A paixão pelo rádio começou em 66, quando  ganhei o primeiro

           rádio do meu padrinho. Depois França Teixeira me deu um. Já tive 45

           rádios, inclusive você já me deu vários. (risos).  Você já me deu vários e

           vários.

MF  =  Então, em 66 você começou a paixão pelo rádio. E depois? Antigamente o

            torcedor não tinha acesso como tem hoje. Você começou a ligar quando

           para as rádios ?

L     =  A primeira pessoa que me botou no ar foi você.

MF  = Foi verdade, mesmo.

L     = Você me colocou no ar...

MF  = Foi na Rádio Excelsior, não foi?

L     = Foi, na Rádio Excelsior da Bahia. Eu acompanho rádio desde 66. Sou fã

           de rádio. Não sou muito chegado a televisão, apesar de ter participado, com

           Zé Eduardo (agradeço a ele), várias vezes na televisão, mas o rádio

           é minha loucura.

MF  =  Uma curiosidade, você liga para todas estas rádios, é a cobrar? Você tem

           crédito, como é que é? Explica aí.

L     = Eu ligo com bônus.

MF  = Quais são as rádios que você liga aqui em Salvador?

L     = Todas.

MF  = Não, você não liga para todas. Ou quais as que você não liga aqui?

L     =  Posso falar mesmo?

MF  =  Claro.

L     =  Não ligo para a Nova Salvador FM,  porque Marcelo Carvalho me proibiu

           de ligar.

MF  = Não. Ele me disse que não foi bem assim, você pode ligar, eu estou lhe

           garantindo. Quem é mais? Você liga para meu amigo Mário Kertzs?

L     =  Ligo, liguei neste instante para Bocão.

MF  =  Bocão, é gente boa, você liga para ele também?

L     =  Ligo.

MF  = E para a Sociedade?

L     =  Muito. Começo a ligar para Valdo Silva, até a  noite com Expedito

           Magrine.

MF  =  Sua operadora é OI?

L     =  Tenho Oi e TIM.

Mf   = Você coloca crédito? Coloca bônus, como é?

L     =  Meu celular é conta fixa. Meu plano é velho.

MF  =  E você pode ligar para qualquer telefone fixo?

L     =  Fixo, só fixo.

MF  = Aí você liga direto?

L     = Direto. Eles já me conhecem. Rádio Regional de Serrinha, Santa Cruz de

           Ilhéus, Rádio Conquista FM, Regional de Itabuna, Globo do Rio, Jovem

           Pan, de São Paulo, Aracaju, Jornal do Comércio e aí por diante.

MF  =  São Paulo?

L     = Liguei faz pouco tempo prá Rádio Globo de São Paulo, também.

MF  =  Falou no ar?

L     =  Falei com Gustavo .

MF  = Minas, Pernambuco?

L     =  Ligo, não constantemente, mas ligo.

MF  = Você gosta de ligar não é?

L     =  Gosto, gosto das informações, como é que vai meu bairro, o que precisa.

           Muita gente fala: Laúca, meu bairro está precisando muita coisa , o posto de

           saúde, luz, água... .Aí eu ligo para ajudar.

MF  =  Mas mesmo que não tenha problema, você liga, é uma coisa que lhe dá

           prazer?

L     = É uma doença que tenho. Uma doença boa.

MF  = Voltando no passado. Quem lhe tirou da bebida? Como você foi parar nos

           Alcoólicos Anônimos?

L     =  O último internamento que eu tive, no Juliano Moreira...

MF  = Você teve quantos internamentos por lá?

L     =  Sete.

MF  =  Mas lhe internavam como uma pessoa louca? Você era arruaceiro,

           brigava muito?

L     = Não. Eu tinha problema comigo mesmo. Ouvia vozes, via bicho, via motos,

           via coisas e tinham que me internar para eu tomar os tranquilizantes, muitas

           injeções, glicose na veia..

MF  = Você lembra dos médicos que lhe ajudaram?

L     = Dr. Ubirajara, Dra. Márcia, Dra. Maria Machado.

MF  =  Sobrenome?

L     =  Não lembro.

MF  = Trabalhavam onde?

L     = Juliano, Santa Mônica, Sanatório São Paulo, Ana Neri. Naquela época me

           internavam.

MF  = Quem lhe levava?

L     =  Meu pai, minha mãe.

MF  =  Você conseguia chegar em casa, mesmo estando bêbado?

L     =  Não, o pessoal me trazia, às vezes. De carro de mão, carregado. Loucura.

MF  = Aí você acordava em casa e já ia beber?

L     = Às vezes saia de madrugada, deixava a porta aberta e ia beber.

MF  = E nessa época você trabalhava?

L     = Não, já não trabalhava não. Só fazia beber mesmo.

MF  = Você se aposentou por invalidez, com quantos anos?

L     = Com vinte e poucos anos. Vinte e seis, vinte e sete, sei lá.

MF  = Então, todas as atividades que você falou, foram antes deste período?

L     = Eu ainda conseguia beber trabalhando, mas a bebida me pegou mesmo

           depois que me aposentei, com Dr. Armando Paz, pois fiz uma cirurgia da

           visão, sem sucesso. Ele disse que ia me aposentar por invalidez, porque,

           infelizmente  neste país ninguém ia me aceitar como deficiente, para

           trabalhar.

MF  =  Estas internações demoravam quanto tempo, mais ou mesmos?

L     =  Um mês, um mês e meio.

MF  =  O período maior que você ficou internado?

L     = Dois meses.

MF  = Onde?

L     = No Juliano Moreira.

MF  = Como era o tratamento lá?

L     = Ficava com várias pessoas. Era perigoso, tinha gente de todo tipo. Porque

           depois que eu tomava os tranquilizantes, com dois dias eu ficava bom, mas

           tinha de esperar o médico me dar alta. Aí é que era sofrimento, você ver o

           cara comer papel higiênico, querer matar o outro, daí por diante. Um sufoco.

MF  = Quando você parou de beber de vez ?

L     =  Dra. Márcia e Dr. Ubirajara me chamaram na sala e me disseram : “olha, Sr.

           Arnaldo, a gente vai lhe dar alta, você não tem nenhum problema mental.

           Você é um homem perfeito, você só é alcoólatra”. Eu caí por terra. Sabia

           que o alcoolismo era doença e me deu um papelzinho para eu ir no grupo

           Salvador, na Escola Nossa Senhora  da Luz, na Pituba, na rua Rio Grande do

           Sul. Quando cheguei por lá tremia. Fiquei todo sem jeito. Fiquei por lá

           abraçado, a engenheiros,  deputados, advogados, pedreiros. No Alcoólicos

           Anônimos, lá dentro da sala, todos são iguais, De lá prá cá, está fazendo 30

           anos, no dia 09 de maio, que parei de beber. No dia 21 de maio vamos todos

           comemorar, na rua Minas Gerais.

MF  =  Hoje você não bebe nada?

L     =  Nada que contem álcool

MF  = Logo que você entrou nos Alcoólatras Anônimos, você parou de beber ou

           ainda continuou?

L     =  Na verdade, deixei de beber e depois tive uma recaída de 9 dias que quase me leva à loucura. Tomei uma porretada na

           vista e piorou ainda mais.

MF  =  Explique.

L     =  Porque parei de beber, mas não levava a coisa a sério e aí fui para o interior,

           Castro Alves, resolver um negócio de minha mãe. Cheguei lá, comecei a

           beber, voltei para Salvador, dei para abusar os outros. Deram uma porretada

           na minha vista, aí eu levei nove dias bebendo. Tive de voltar para os

           Alcoólatras. Daí não bebi mais. Faz trinta anos.

MF  = Então o que lhe curou foram os Alcoólatras Anônimos. Você era casado

           nessa época?

L     = Não. A primeira mulher que tive foi em 89, Maria de Lourdes Xavier,

            morreu em 93, com problema renal.

MF  =  Você teve filhos com ela, Laúca?

L     =  Não. Eu não tenho filho. Com Dona Iris já tenho 17 anos juntos.

MF =  Dona Iris tem uma filha, não é isso?

L     = Tem quatro filhos.

MF  = E você os tem como filhos, né ?

L     = Eles tem o maior carinho por mim, um carinho especial. Dona Iris também.

MF  = Laúca, agora um problema que todo mundo fala: por que é que vem esta

           história, que Laúca é pé frio? Quem criou isto no rádio?

L     = Ha, ha, ha...

MF  = Outro dia eu falei com o meu amigo, Dr. José Carlos Brito, aquele médico

           que lhe atendeu. Ele disse: “Ah! Eu sei quem é, aquele que dizem que é pé

           frio”. Que história é esta de Laúca Pé Frio?

L     =  Rapaz, isto aí é uma brincadeira que inventaram.

MF  = Quem inventou?

L     =  Foi um ouvinte, Cláudio, na Rádio Transamérica e aí, começaram a brincar e

           Val, outro amigo, aderiu a esta brincadeira e pegou. Mas eu não ligo não.

MF  =  Márcio Martins e Sinval Vieira, não deixavam você ligar em véspera de jogo

           do Vitória?

L     =  Não.

MF  =  E aí, a galera brinca muito com você, lhe chamando de pé frio?

L     = Brinca, onde eu passo na rua, diz: não liga hoje não, mas eu não me

           incomodo não, já passou  isto aí. Mas muita gente brinca sim. Já me zanguei

           muito, não vou mentir, mas agora não. É passado. Hoje eu tiro de letra.

MF  =  Laúca, quais foram os jogadores que você viu jogar e que mais lhe

           agradaram.

L     =  Aí vamos levar o dia todo falando.  Mas vamos lá: Pelé, Jaizinho,  

           Backenbauer, Tostão, Dirceu Lopes, Ademir da Guia, Doutor Sócrates, 

           Douglas (do Bahia), muito bom jogador. San Felipo, Apodi, Mário Sérgio

           (ponta esquerda do Vitória), vários. Se eu for citar aqui... Messi, Cristiano

           Ronaldo, os dois Ronaldos...

MF  =  Você tem algum amigo de infância até hoje, que você mantem contato?

L     =  Vários. Tem um amigo meu que está até internado, no HGE, Elivaldo, meu

           amigão, é pintor. Fernandes, que é carcereiro da Mata Escura, o Borjão,

           Elias, policial civil, cresceu comigo. Tem Vavá, Persega (Luis Fernando).

           Aqui todo mundo tem apelido.

MF  =  Você já sofreu alguma traição? Alguma coisa que lhe marcasse, de um

           amigo, que tivesse lhe decepcionado?

L     = Já.

MF  = Você quer contar?

L     = Quando eu era mais novo, é até uma bobagem, mas para mim foi uma

           traição. Eu precisava de comprar um rádio nas Lojas Ipê e o cara me

           garantiu que ia comigo, eu contei com ele, que seria o  fiador. Quando

           cheguei lá, ele não estava e ainda inventou mil histórias, que não podia, não

           sei o que... Foi uma decepção na minha vida.

MF  = E hoje, você tem contato com ele?

L     = Não, Deus já levou ele.

MF  =  Então não fale o nome dele, pois não tem como se defender.

L     = Mas não tenho raiva dele não.

MF  =  O que você gosta de comer?

L     =  Uma comida baiana, é muito bom...um peixinho...hum!... Pena que agora

           estou controlando minha alimentação, porque Dr. Carlos Brito e Dra Márcia,

           a esposa dele, mandou eu controlar. Eu ando pela manhã cedo, de vez em

           quando dou uma andadinha pela orla. Gosto de comer uma comida baiana,

           rapaz... sou chegado a um sarapatelzinho...uma feijoada, é gostoso demais.

            Mas...macarrão é meu forte, gosto muito.

MF  = Bebida alcoólica, totalmente fora?

L     = Bebida alcoólica eu não posso, aliás, Mário, eu nunca gostei de bebida

          alcoólica, gostava do efeito que ela me causava, prá ficar louco, prá gritar,

          prá xingar, prá pular...

MF  = Hoje, quem são seus grandes amigos?

L     = Amigo mesmo, aquele amigo  de sentar, conversar e abrir o coração, só tenho

           um que é Luiz Oliveira.

MF  =  Ele faz o que na vida?

L     =  Ele é aposentado. Trabalhou na OAS, na Terwal, na Codeba, tem 71 anos, é

           da terra de Edson Almeida, de Uruçuca. Qualquer problema que eu

           tenho, ligo prá ele e já vai logo me ouvir. Mas tenho muitos amigos.

MF  = O que você gosta mais de fazer, além de ligar para as rádios?

L     =  Gosto de ler o meu brailler, pois não posso mais ler a letra de tinta. Gosto de

           bater papo com meus amigos. Gosto de ouvir muita piada, tenho vários

           pendrives de piada: Ari Toledo, Mussão, Zezinho... Não sou chegado a

           televisão, quando minha esposa está aqui, de vez em quando, passo o olho

           assim, mas não sou chegado não.

MF  = Você acorda normalmente que horas?

L     =  5 horas da manhã.

MF  =  Para ligar para rádio.

L     =  Ah! Já estou com o dedo no gatilho.

MF  = E vai dormir que horas?

L     = Doze horas, dez e meia, onze horas... depende.

MF  = Também ligando. Você faz em média quantas ligações prá rádio, por dia?

L     = Umas 20, 25, depende. No dia que estou inspirado até mais.

MF =  Você acorda por acordar ou é para ligar? É vício, mas um vício bom, não é?

L     = Eu não acordo para ligar, acordo por que tenho de acordar mesmo, mas aí já

           estou ligando para alguma rádio.

MF  = Você tem gratidão hoje a algumas pessoas? Alguém lhe ajuda no dia a dia?

L     =  Tem. Tenho muita gratidão ao Dr. Vespasiano Santos, que até hoje continua

           me ajudando. Um cara gente boa. Dr. Ivo Amado, da Oftalmodiagnose, Dr.

           Marcelo Nascimento, médico de glaucoma. Dr. José Carlos Brito, Dr.

           Epifânio Carneiro, Alex Portela, você e outros. São vários.

MF  =  Na diretoria do Vitória, você tem alguma amizade boa, além de Alex

           Portela?

L     =  Ferrerinha, Gerson Parceiro,este sempre liga para mim. Sinval Vieira,

           sempre solícito a mim, muito amigo, muito parceiro.

MF  = Legal, Laúca, quer falar mais alguma coisa?

L     = Eu quero agradecer a você pelo espaço, desta grande entrevista, se não foi do

           seu agrado, mas de qualquer forma, tentei  fazer o melhor.

MF  = Foi ótimo. Alguma coisa que não lhe perguntei e que você queria falar?

L     =  Rapaz... você faltou me perguntar qual foi a minha maior alegria com o

            Vitória e qual a maior tristeza.

MF  - Boa... Fale aí.

L     = As maiores alegrias que tive com o Vitória foram na era de Paulo Carneiro.

           Quando jogava com o Bahia já sabia que ia ganhar, tranquilo. Era na

           época de Ramon, Adoilson, Nei, Agnaldo Capacete, Bebeto Gama, Túlio,

           Petkovic...A tristeza foi quando o Vitória caiu. Junto com o Bahia, para a

           terceira divisão, em 2005.  Eu chorei igual a uma criança, no meio da rua.

MF  = O Vitória empatou no Barradão.

L     = Três a três com o Portuguesa e o Bahia perdeu para o Paulista em Jundiaí.

MF  =  Um a zero e eu estava lá neste dia.

L     = Não, tomou três a dois.

MF  =  Três a dois, é verdade.

L     =  Aí o Vitória estava praticamente na série B ainda. Criciuma e CRB, abriram

           um negócio estranho. Teve um pênalti e o Vitória caiu.

MF  = Você frequenta estádio?

L     = Frequento.

MF  = Você vai em todo jogo do Vitória?

L     = Todo não, mas de vez em quando eu vou. Meu amigo Carlos, de Valença,

           que ligava muito prá você, de vez em quando vem. Eu vou com ele. Vou só,

           Sinval me traz. Gerson Parceiro me traz, a galera daqui do Nordeste.

MF  = Você paga para entrar no estádio? Paga para entrar no Barradão?

L     =  Eu? Não pago nada. Quem manda no Vitória sou eu (risos).

MF  =  Você tem carteirinha?

L     =  Não tenho não. Eu conheço muita gente, a galera toda e me deixa entrar.

           Epifânio me arranja ingresso... Não me preocupo com isso não, prá mim é

           mole.

MF  =  Você só vai em jogo do Vitória ou vai em jogo, do Bahia, também ?

L     =  Quando é o Campeonato  Brasileiro e o Bahia está bem, com um time bom,

           eu vou.

MF  =  Você vende seus produtos nos estádios?

L     = Não, só vou para curtir, ficar com os amigos. Até na  Bamor, eu já assisti

           jogo. Os caras gostam de mim, dão risada, ficam fazendo gozação, dizendo

           que sou pé frio, mas tudo brincadeira. Os meninos gostam de mim, são de

           boa.

MF  =  Obrigado Laúca.

L     =  Grande abraço.

MF  = Valeu.

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