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​A maior zebra da Fonte Nova

Antônio Matos em 07 de agosto de 2017 às 14:31

Não há, na longa história do estádio, a existência de um resultado tão imprevisível.

Somente em 1964, ao derrotar por 2 x 1 o todo-poderoso Vasco da Gama nas Laranjeiras, o folclórico Gentil Cardoso, então treinador da modesta Portuguesa, iria cunhar o termo zebra como sinônimo de resultado improvável num jogo de futebol. Mas, confirmando a máxima criada pelo ex-governador baiano Octávio Mangabeira, de que na Bahia há precedente para qualquer absurdo, a Fonte Nova já registrara bem antes, em 28 de julho de 1957, uma zebra tamanho G.

Numa tarde de domingo, aquele estádio localizado na ladeira da Fonte das Pedras,em Salvador, inaugurado em 28 de janeiro de 1951, reformado 20 anos depois, em 4 de março de 1971, com a construção de um novo anel, implodido em 29 de agosto de 2010 e reinaugurado em 5 de abril de 2013, seria palco de uma inesperada goleada.

Formado for jovens jogadores, um time misto do Bahia iria dar um show de bola e vencer por 4 x 1 o famoso Benfica, bicampeão português, campeão da Taça de Portugal e vice-campeão da Taça da Europa.

Sob o comando do treinador Armando Simões e integrada por aspirantes, reservas e garotos forjados em sua maioria no próprio clube, a ‘Juventude Transviada’ era mesmo atrevida. Além de disputar com sucesso o campeonato baiano de 1957, enquanto o elenco principal excursionava por longos quatro meses em gramados da Europa, também fazia bonito em amistosos realizados em Salvador, derrotando o uruguaio Montevideo Wanderers e o Atlético Mineiro.

Testemunha e protagonista da memorável partida contra o Benfica, o lateral direito Calmon, então com 23 anos, lembra com brilho nos olhos de tudo o que aconteceu naquele dia. “Jogamos nossa bola e não tomamos conhecimento do adversário”, disse, observando que os portugueses faziam uma temporada vitoriosa no Brasil, goleando o Palmeiras por 3 x 0, empatando com o Flamengo em 0 x 0 e 1 x 1 e com o América também em 1 x 1. “Apenas derrapou na Vila Belmiro, quando perdeu para o Santos, por 3 x 2”, acrescentou.

Na Europa, onde começou a excursão, triunfos diante do Torino, na Itália, e do Saint-Étienne, na França. Na América do Sul, antes de chegar ao Brasil, mais vitórias: sobre o Peñarol, do Uruguai, e o Racing, da Argentina. O Benfica começava a se firmar no seleto cenário do futebol europeu, graças ao trabalho do treinador brasileiro Oto Glória, que o transformara num dos principais times do Velho Mundo.

“Sabíamos de tudo isso, mas não nos amedrontamos, nem mesmo quando eles fizeram 1 x 0, logo no início do jogo”, garantiu o ex-jogador Antônio Francisco Calmon, 82 anos, hoje empresário bem sucedido, proprietário de uma oficina de carros localizada na rua Henrique Dias, no bairro do Uruguai, na capital baiana. A jogada começou com Caiado, pelo lado esquerdo, mas a finalização foi do artilheiro Águas.

“O empate veio, logo depois, com Aducci. Ele chutou forte e o goleiro (Bastos) deu rebote. O zagueiro de área (Arthur) não fez a cobertura e o próprio Aducci mandou a bola para o fundo das redes”, afirmou o vigoroso lateral Calmon, que não deu durante toda a partida o menor espaço ao driblador Cavém, também ponta esquerda titular da Seleção Portuguesa.

“Na época, os jogadores da defesa, notadamente os laterais, faziam uma marcação homem a homem. Eu colava no extrema canhoto e, se ele bobeasse, dava-lhe um tombo com o corpo e o empurrava para as britas, que ficavam próximas da pista de atletismo que circundava o campo na velha Fonte Nova”, declarou, com um sorriso malicioso de canto de boca.

O Bahia cresceu depois do empate, com destaque para o sistema defensivo e para o bom futebol exibido por Bombeiro e Careca no meio de campo. O ataque é que se apresentava dispersivo, com Ruy Tannus e Biriba pouco utilizados. Apesar disso, a virada no placar chegaria ainda no final do primeiro tempo, por intermédio de Careca, chutando de pé direito.

No intervalo, Oto Glória fez alterações no time do Benfica, tirando o goleiro Bastos (trocando-o por Costa Pereira) e o zagueiro Arthur (substituindo-o por Zezinho), que andaram discutindo após a marcação do gol de empate do Bahia. Pouco adiantou.

Aos quatro minutos, Ruy Tannus ganhou a bola de Calado na intermediária, avançou e, diante da saída de Costa Pereira, que costumava se posicionar na linha da pequena área, cobriu o goleiro e fez 3 x 1, acertando o ângulo superior direito da meta portuguesa.

“Sabendo como atuava Costa Pereira, Seo Armando orientou os atacantes para que chutassem de longe, a fim de surpreendê-lo. Deu certo, Ruy assinalou um golaço e desestabilizou os portugueses”, explicou.

Não demorou muito e o Bahia consolidou a goleada com Biriba, ao aproveitar uma bela jogada de Olício. O ponta esquerda driblou os zagueiros Zezinho e Calado e cobriu Costa Pereira. A bola bateu na trave oposta e sobrou para Biriba tocar a bola para as redes.

O Benfica não se conformou com a derrota e usou o cansaço dos jogadores como argumento para justificar o vexame. O técnico Oto Glória e o capitão Caiado disseram que ninguém da delegação dormiu na antevéspera do jogo, aguardando no aeroporto de Congonhas, com pistas interditadas por causa do nevoeiro, o voo para Salvador.

“Conversa, naquela tarde ninguém ganhava da gente”, assegurou Calmon, que viu dois dias depois, na mesma Fonte Nova, o Bahia, já com o time principal que retornara do exterior, perder a revanche para o Benfica por 2 x 1.

 

 

‘Juventude Transviada’

Com muita propriedade, aquele ousado time era chamado de ‘Juventude Transviada’, uma homenagem ao filme de grande sucesso de bilheteria na época, produzido por Nicholas Ray e estrelado por James Dean e Natalie Wood, e que refletia a irreverência, a angústia e a rebeldia dos jovens norte-americanos dos anos 50. Do seu elenco, sairiam três jogadores campeões brasileiros em 1959: Bombeiro, Careca e Biriba.



Experiência portuguesa

Quatro jogadores daquela excelente equipe do Benfica atuavam na Seleção Portuguesa: o goleiro Costa Pereira, o meio de campo Mário Coluna e os atacantes Águas e Cavém. Coluna, inclusive, participou brilhantemente da Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, quando Portugal, também sob a direção técnica do brasileiro Oto Glória, conquistou um inédito terceiro lugar.



Estes eram os ‘caras’

Haroldo Cavezalle, o Gaúcho

Nem Haroldo nem gaúcho. O prenome de Cavezalle é Harold (com d mudo no final) e ele nasceu em Palmital, no interior paulista. Seguro e de bom porte, encerrou a carreira no Bahia. Passou pelos juvenis do Palmeiras e Vasco e atuou profissionalmente em diversos clubes do Rio Grande do Sul (Novo Hamburgo, Bagé, Brasil de Pelotas e Guarany de Bagé) e ainda em Pernambuco (Santa Cruz). Também teve breves passagens pelo Nacional de Montevidéu e no Chile.

 

Calmon

Revelado pelo Santos, time amador que participava de um campeonato no campo do Águia do Norte, no Retiro, foi levado em 1956 para o Bahia, pelo diretor Jonga Simões e pelo massagista Luiz Negreiros. Inicialmente zagueiro de área, firmou-se como lateral direito, tendo como companheiros, em momentos distintos, Chagas, Bacamarte e Henrique. Sem querer abandonar as atividades mantidas fora do futebol e diante da contratação de Leone, perdeu espaço entre os titulares.

 

Chagas

Compadre de Calmon, com quem jogou no Bahia e no Guarany, também teve Bacamarte e Juvenal Amarijo como parceiros no miolo de zaga tricolor. Sua atuação contra o Benfica foi bastante elogiada pela mídia, em razão da severa marcação que impôs ao artilheiro angolano Águas, até hoje somente superado em número de gols na equipe portuguesa por Eusébio. Foi titular do time do Bahia supercampeão de 1954 e da equipe mista que participou da Taça Brasil de 1960.

 

Marivaldo

Formava uma respeitável dupla de zaga com Chagas e tinha o DNA tricolor: sobrinho do técnico Armando Simões e dos dirigentes Hamílton e Jonga Simões e irmão de Evandro, reserva do ‘Juventude’, e de Tavinho, que, além do Bahia, atuou também no Ypiranga. Trocou o Bahia pelo Remo, após passar no vestibular para Medicina em Belém, radicando-se definitivamente naquela cidade depois que se diplomou. Médico conceituado, sua especialidade era a Ginecologia.

 

Florisvaldo

O lateral esquerdo do ‘Juventude’ era Pernambuco, mas o técnico Armando Simões obteve autorização do clube para utilizar Florisvaldo neste compromisso internacional. Baiano de Salvador, começou no Guarany como ponta esquerda, transferindo-se em 1954 para o Bahia, onde permaneceu como jogador até 1967. Eficiente marcador, pertenceu ao elenco campeão brasileiro em 1959 e, já como técnico, conquistou o título estadual em 1983, substituindo o demissionário Paulo Amaral.

 

Bombeiro

Com passagens pelo Galícia e Vitória, foi um dos destaques do Bahia no jogo com os portugueses. Participou da campanha tricolor responsável pela conquista da I Taça Brasil, substituindo Ari, operado do fígado, em três partidas: diante do Vasco da Gama, em Salvador, e contra o Santos, na Vila Belmiro e na Fonte Nova. Numa época em que o futebol não exigia tempo integral, conciliava as atividades de atleta com as de bancário. Formou-se em Direito depois que pendurou as chuteiras.

 

Careca

Foi autor do gol da virada tricolor e um dos melhores naquela competição. Revelado pelo São Cristóvão, transferiu-se em 1957 para o Bahia, onde conseguiu, dois anos depois, o título de campeão brasileiro. Excessivamente técnico e com muito bom passe, tinha excelente visão de jogo. Nas temporadas de 1960 e 1961, atuou pelo Vitória sem muito destaque. Posteriormente, em companhia do goleiro Jair, antigo companheiro do Bahia, levantou o certame estadual de 1966, pelo Leônico.

 

Biriba

Oportunista, fez o último gol do Bahia, depois de uma jogada de Olício pela esquerda. Promovido ao time principal e sem chances de ser efetivado na direita em razão da excelente fase de Marito, acabou virando extrema canhoto. Do elenco campeão da I Taça Brasil, foi o único dos 20 jogadores a somente vestir, durante toda a carreira profissional, a camisa do Bahia. Iniciada em 1955, sua história no clube se encerrou em 1969, pouco depois de completar 30 anos.

 

Aducci

Além do Bahia, em 1957, o artilheiro Aducci Pinto de Jesus, nascido em Ilhéus, defendeu também o Vitória (1955 e 1956), Botafogo (1958 e 1962), Ypiranga (1959) e São Cristóvão (1963). Alto, magro, bom cabeceador, tinha 25 anos quando marcou o gol de empate contra o Benfica. Aposentado como marítimo e morando atualmente na Ilha de Itaparica, foi também rodoviário, exercendo a profissão de cobrador de ônibus nos tempos em que ainda jogava futebol.

 

Ruy Tannus

Aquele gol de placa, cobrindo Costa Pereira, foi um dos mais bonitos assinalados por ele. Depois do Bahia, Ruy jogou no Vitória, participando da primeira excursão do clube à Europa em 1960, ao lado de Roberto Rebouças, Pinguela, Medrado, Otoney e Carlinhos Gonçalves, dentre outros jogadores. Embora atuasse entre os profissionais, nada recebia dos clubes. Até os bichos a que tinha direito, costuma distribuir com os colegas que tinham menores salários.

 

Olício

Saiu de seus pés a brilhante jogada que resultou no gol de Biriba e que liquidoua partida. Procedente do América (RJ), onde atuou de 1953 a 1957,o capixaba Olício Salarini foi contratado pelo Bahia em 1957, permanecendo até 1958. No ano seguinte, teve o passe negociado para o Botafogo (Ba), em troca da renda total, abatida as despesas, de dois amistosos entre os clubes. Também atuou no Bonsucesso, no início de carreira, encerrando as atividades no Cachoeiro, do Espírito Santo.

 

Frader

Ao lado do lateral Florisvaldo e do atacante Carlito, o argentino Frader foi um dos três jogadores pinçados do elenco principal e utilizados como reforço para este amistoso internacional. Entrou no segundo tempo, em substituição a Biriba. Canhotinho e com excelente técnica, dava qualidade ao meio de campo do Bahia, embora fosse, algumas vezes, improvisado mais avançado. Já veterano, boa praça, chegou a Salvador em 1956.  

 

Evandro

Era reserva, mas sempre entrava no time. Além dos irmãos Marivaldo e Tavinho, tinha três primos que também jogavam futebol na época: Miltinho, Veveca e Geraldo Simões, este campeão estadual pelo Leônico em 1966. Era casado com Ada Arenari Simões, irmã do zagueiro Vicente, titular do Bahia que conquistou a Taça Brasil de 1959. Bancário aposentado – trabalhou nos já extintos Banco Econômico e Baneb – faleceu em junho deste ano.

 

Carlito

A confiança do técnico Armando Simões era tão grande na meninada que ele se deu ao luxo de deixar inicialmente o goleador Carlito, que acabara de chegar com o time principal do exterior, no banco de reservas. Apesar do excelente poder de finalização e de ser conhecido pelas certeiras cabeçadas, desgastado pela longa excursão à Europa, não rendeu bem. Jogou 15 anos no Bahia – único clube em que atuou –  de 1946 a 1959 e até hoje é ainda o seu maior artilheiro, com 253 gols.  

 

 

Ficha

Dia: 28 de julho de 1957, domingo

Local: Salvador

Estádio: Octávio Mangabeira (Fonte Nova)

Renda: Cr$ 600,250 mil

Juiz: José Cavalcante de Brito, da Federação Bahiana de Desportos Terrestres

Auxiliares: José Tosta e Willer Costa, da Federação Bahiana de Desportos Terrestres

Goleadores: Águas, aos 7’, para o Benfica, e Aducci, aos 9’ e Careca, aos 39’, no primeiro tempo, para o Bahia, e Ruy Tannus, aos 4’, e Biriba, aos 18’, para o Bahia, no segundo tempo.

Times:

Bahia – Haroldo Cavezalle, Calmon, Chagas, Marivaldo e Florisvaldo. Bombeiro e Careca. Biriba (Frader), Aducci, Ruy Tannus (Evandro) e Olício (Carlito).

Benfica – Bastos (Costa Pereira), Calado, Arthur (Zezinho), Alfredo e Ângelo. Pegado e Coluna. Palmeiro, Águas, Caiado (Salvador) e Cavém.

 

 

Antônio Matos

Jornalista, escritor e delegado

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